Dentre todo o carnaval midiático em torno do escândalo envolvendo o já ex-governador do estado de Nova York Eliot Spitzer, apenas uma frase chamou a minha atenção:
“a política não é sobre indivíduos, mas sobre idéias”.
Esta frase foi dita pelo então governador horas antes de sua renúncia. O que será que ele quis dizer com isso?
Com meus botões, a princípio até pensei: que coisa óbvia, isso é fato! Mas logo mudei de opinião. Explico. Como é possível dissociar uma idéia de seu portador? Por mais que o Ser Humano se julgue capaz de ser um observador isento da natureza e seus fenômenos, como podemos isolar as idéias do Homem de seu contexto social e político ou, indo mais a fundo, de seu próprio ser? Ora, se Eliot Spitzer não é capaz de ser fidedigno daquilo que deveria ser a sua maior responsabilidade, que é o lar do qual ele é o chefe, como é possível investi-lo confiança para chefiar um dos mais importantes estados americanos?
Certamente é difícil avaliar as circunstâncias que levam uma pessoa a tomar certas atitudes, as melhores ou as piores. Porém esse não é o ponto central da frase de Spitzer. Não se trata somente de suas atividades “nas horas vagas”. Se trata, sim, de sua visão sobre o mundo, daquilo que se passa na cabeça dele. Ao dizer que a política não é feita de indivíduos, mas sim de idéias, Eliot Spitzer quer dizer: – “Eu faço aquilo que bem me importa. Afinal, estou do lado certo do espectro ideológico, sou um cara inteligente, politicamente correto e fiz fama em Manhattan defendendo o Estado da tirania das grandes corporações”. Aí que reside o seu erro.
Não, a vida e a política não repousam somente sobre idéias, mas sim sobre o que está por dentro, lá no fundo, de quem é o progenitor ou o portador de uma idéia. E sim, a política é sobre indivíduos, sim. É sobre pessoas reais e normais, que são elevadas a posições de confiança pelos demais membros da sociedade para desempenhar uma função por determinado tempo. Se eu sei que o meu vizinho é um bêbado que espanca a mulher, eu não vou querer votar nele para tomar conta da escola dos meus filhos ou da saúde da minha família, – mesmo sabendo que ele pode ter boas idéias -. Já diz a sabedoria popular: de boas idéias e boas intenções o inferno está cheio.
Claro que não temos a prerrogativa para julgar as pessoas e suas escolhas privadas. Porém, a partir do momento que o coletivo é influenciado, as coisas mudam um pouco. Com que dinheiro o Sr. Spitzer fazia suas peripécias? As fazia em viagens oficiais? Fazia uso de assessores para acobertá-lo? Mentia sobre compromissos em sua agenda de governador? Isso sim é o que queremos saber.
A célebre frase de Stalin resume a mentalidade dos que dizem que as idéias são mais importantes do que os indivíduos: “Uma única morte é uma tragédia; um milhão de mortes é uma estatística”.
Que Deus nos livre deles!